VOGUE BRASIL
A TransiCAo de Liam Neeson
1994
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Questiona‑se se Liam Neeson é mais conhecido por seu trabalho ou por seu sucesso com as mulheres. Mas, agora, com o recente sucesso na Broadway e o papel de destaque na Lista de Schindler, ele também está conquistando coraçoes em Hollywood.


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Quando Steven Spielberg escolheu Liam Neeson para representar Oskar Schindler em seu filme ganhador do Oscar, o famoso A Lista de Schindler, ele disse: '”Vou lhe fazer a melhor interpretacao em filme que ator algum jamais teve'”. E assim foi.

Nas tomadas de apresentacão pode‑se ver, de costas, um homem alto, vestido meticulosamente para a noite. Vê‑se sua mao apanhando um par de abotoaduras de ouro. Uma suástica esmaltada é presa a uma lapela de cetim. Corte para a cena do clube onde o maitre aproxima‑se ansiosamente e o conduz a uma mesa. Quando a camera faz um giro pela primeira vez, revelando o belo rosto de Oskar Schindler, ele sorri intencionalmente para as mulheres sozinhas na mesa ao lado.

Liam Neeson é, como dizem na Irlanda, um sujeito grande e bonito, em seu 1,84 metro, o nariz quebrado desde quando era boxeador e um magnetismo pessoal que atrai a distancia. Os oculos com aro de tartaruga lhe dão um aspecto mais suave e desamparado. Fala com gentileza, com acentuado sotaque de Belfast e as ricas tonalidades envolventes que Steven Spielberg descreve como sua “voz de cigarro e conhaque".

A Lista de Schindler, o filme baseado no romance vencedor do Booker Prize de 1982, de Thomas Kenelly, sobre a verdadeira historia de um industrial cuja fábrica contratou e salvou mais de mil judeus na Polonia ocupada pelos nazistas, foi um ponto crucial nas carreiras tanto do diretor quanto do ator. Ambos foram indicados para o Oscar. Spielberg e o filme levaram as estatuetas, mas Liam deixoua para Torn Hanks. Comenta‑se em Hollywood que este filme significa mais para Spielberg do que qualquer um dos outros, incluindo o arrasador Jurassic Park. 0 mestre dos efeitos especiais e do entre­tenimento puro mudou para uma formula corajosa de cinema verdade, para fechar a lacuna entre a ficcao e o documentário. Amplo em suas reverberaçoes emocionais, politicamente dinâmico em sua noçao de tempo, o filme concretizou o tao almejado sucesso de Spielberg e colocou Liam, aos 41 anos, no topo.

“Não sei nada sobre isso” , diz ele. “Veja, é em preto e branco, tem três horas de duracao, é contra o Holocausto e eu represento um sujeito com sotaque alemão” . Ele dá um riso abafado. Dor e humor aparecem juntos em seu rosto. ' 'Não vai me transformar em Kevin Costner”. Para Spielberg, Neeson foi a escolha maxima para o empolado e enigmático Schindler. Ele não foi um heroi que se identifica facilmente. Era um bon vivant e gostava de beber; operava no mercado negro, aproveitando‑se da guerra, e era um jogador; um playboy católico e, acima de tudo, irresistivel as mulheres. Ao menos no que se refere as duas ultimas caracteristicas, Neeson se encaixa como uma luva.

0 nome de Liam tem sido ligado, através dos obstinados clichés da imprensa que ele detesta, aos nomes de algumas das mulheres mais interessantes ou belas de sua geracão: Barbra Streisand, Sinéad O'Connor, Helen Mirren, Julia Roberts, Brooke Shields. E ao de Natasha Richardson ‑filha de Vanessa Redgrave e do falecido Tony Richardson ‑, desde o sucesso com ela na Broadway, no clássico Anna Christie, de Eugene O'Neill.

Neeson fica constrangido quando ve estes nomes na imprensa: “Amei muito as mulheres com as quais me envolvi, mas quando se aborda so este aspecto, me pergunto: onde foram meus 22 anos de carreira?” Ele detesta particularmente quando sua mae lé “estas coisas".A viuva Kitty Neeson, uma cozinheira escolar aposentada, ainda vive em Ballymena, condado de Antrim, uma catolica fiel no baluarte protestante. Quando as criancas eram pequenas, cia fazia com que fossern missa todos os domingos e observassem os dias santos de obrigaçäo. Suas três irmäs, Elizabeth, Bernadette e Rosaleen, estão todas bem casadas.

Com fisionomia preocupada, dc diz: Não tive noticias de Natasha. Estou muito apaixonado e gosto de saber dela. Eu a amo. Por favor, escreva isso. Porque estamos muito juntos e somos muito abertos sobre isso… Acho que coincide com determinada época da vida da gente” . Ele nunca se casou: "Os homens se däo conta de quem são emocionalmente nesta idade, sabe? Felizmente, já no contam mais o numero de mulheres com quem se deitaram".

Liam participou pela primeira vez de uma peca aos 16 anos, no porque quisesse ser ator, mas porque tinha interesse em sua parceira. Foi boxeador, operador de empilhadeiras em uma cervejaria background que the garantiu o primeiro papel importante com o The Lyric Player's Theatre, em Betfast, representando "Big Jim” Larkin, o fundador do movimento trabalhista irlandês, em The Risen, uma peca sobre os problemas de 1912. Sua segunda oportunidade ocorreu quando o diretor de cinema John Boorrnan viu Neeson representando Lennie em Of Mice and Men (Ratos e Homens), de John Steinbeck e escalou‑o para ser Sir Gawain em Excalibur: “Isto foi otimo, porque, pela primeira vez, ganhei alguns shillings extras. Naquela época, a libra inglesa era fraca em relaçao ao dolar americano, e havia muitas minisseries sendo feitas na Inglaterra. Quando o trabalho acabou em Londres, consegui uma chance num episodio de Miami Vice que me valeu um visto de trabalho. Então, pensei: vá onde o trabalho está. E eu não queria set um ator irlandes frustrado me recriminando aos 50 anos. Quando tinha 34, joguei fora minha chance de ir a Los Angeles".

E ete foi para Los Angeles. Mas a simples mencão de Los Angeles projeta uma sombra em suas feicoes belicosas: “Quando cheguei a Hollywood, um homem gordo com um charuto perguntou sobre o que eu tinha feito, e eu respondi que tinha feito umas boas representacoes de Of Mice and Men. Ele tirou o charuto da boca e disse: 'Vocé fez o rato?"

Neeson nunca se acostumou com a forma como os atores de Los Angeles vao aos palcos ensaiar com os bips ligados, a tiracolo, para o caso de haver uma grande proposta a caminho ou de serem procurados para uma audicao de um filme. Ele tern raiva porque todos estes anos com o Abbey Theatre, o melhor teatro do mundo, nao contam nada ao redor das piscinas de Los Angeles. E este boxeador que le Robert Frost e W. B. Yeats no quarto de hotel, foi também um osso duro de roer para Hollywood. em uma relacao dos filmes violentos, desempenhou um terrorista do IRA, um vagabundo, um boxeador, um produtor de filmes pornos, um cientista deformado e vários criminosos. A aclamaco da critica que conquistou em alguns destes filmes não conseguiu registra‑lo de maneira indelevet na mente da América, o que parece ter aprofundado seu cinismo: "Foi Orson Wells quem disse que Hollywood é como uma cadeira de balanço? Voce senta nela e, quando se levanta, quarenta anos se passaram. Eu tenho perambulado, sabe? Quem sou eu para reclamar? Hollywood gira em torno do dolar e e consistente sobre isso. Voce podè ser um ator mediocre ou bom ator; se fizer um filme de sucesso receberá os scripts. Ja estou ha muito tempo nesse negócio para acreditar que bons scripts virao voando so por causa de Schindler. OK, digamos que isso aconteca. Digamos que eu e o filme somos um sucesso de critica e que a grande proposta venha: procurarão Richard Gere!"

Ironicamente, foi um papel no palco que o levou ao que seria seu filme de ruptura. em Anna Christie, como Mat Burke, um marinheiro encarregado da fornalha, apaixonado por uma garota que depois descobre set prostituta, ele aumentava a temperatura das platéias ao nlvel maximo. Todos os lugares foram vendidos e ele foi indicado para um Tony. Natasha Richardson, que convenceu o perfeccionista Neeson a tentar a peca, ficou surpresa por seu tour de force. Ele sabia todas as falas desde o primeiro dia do ensaio. "Liam e um astro já ha algum tempo. As pessoas demoram a perceber isso”, ela disse.

Natasha e um pouco mais reticente sobre seu parceiro, agora que está oficialmente separada de Robert Fox, seu marido por dois anos. Spielberg, que estava indeciso quanto ao ator de Schindler, levou sua esposa, Kate Capshaw, e sua mae ao camarim no fim da peca. Vendo que a mae de Kate ainda esfregava os olhos apos a cena final, Neeson abracou‑a com tanta forca que ergueu‑a do chão. Dc volta para casa, no carro, Kate disse ao marido: “Sabe, isso e exatamente o que Oskar Schindler teria feito". Depois de uma semana o papel era de Neeson.

Ele temninou a peca num domingo e voou para a Polonia na segunda. As 6 da manhas da quarta‑feira, ainda um pouco tonto, ele estava com os pes afundados na neve em Auschwitz, pronto para receber um tranco emocional que iria projetá‑lo no estado de espIrito de Schindler. “La na minha frente estayarn aquelas fileiras tristes e familiares de cabanas, mas também a costumeira confuso, caravanas, trailers e cabos. Sabia que estava diante de um monumento sagrado, mas, ao mesmo tempo, em meu estado de torpor, era apenas mais uma locacao” . Branko Lustig, um dos co‑produtores, estava ao lado de Neeson: 'Lustigme disse: 'Horrivel, nao?' Eu respondi: 'Acho que sim. Mas, de algum modo, nao e essa a sensacao que tenho'. E Branko tirou sua luva em silencio, desabotoou a manga e assim pude ver o numero tatuado. Ele disse: 'Eu nasci la em Auschwitz'. Para mim a conexao estava feita".

A violencia no filme acontece de forma desapaixonada, diz ele o que torna‑a mais aternorizante: "Os nazistas puseram sua solucao final em acao com a mesma habilidade com que fabricam MercedesBenz. Matavam pessoas com blocos, notas, numeros e burocracia".

0 unico ponto de desentendimento que teve com o diretor, diz, foi que Spielberg queria que ele engordasse para fazer Schindler: “Schindler era um homem grande e robusto que parecia vinte anos mais velho, da maneira como as pessoas eram nos anos 40. Fazer oito apresentacoes por semana em Anna Christie havia me deixado um pouco magro. Spielberg dcu‑me algumas coisas que fazem ganhar peso, usadas pelos fisicultores. Bom, isso me deixou doente. E pensei que, se tivesse sucesso, as pessoas apenas iriam dizer: 'Jesus! Corno o Neeson engordou!' Näo é que eu iria me casar com o papel, foi o meu argumento. Bern, funcionou, entende o que quero dizer?"

Liam Neeson foi mais aclamado pela critica por A Lista de Schindler do que por Anna Christie, mas ha ansiedade na voz de Neeson quando fala sobre recentes sucessos de bilheteria como O Fugitivo: "Roteiro maravilhoso e maravilhosos trabalhos de Harrison Ford e de Tommy Lee Jones. Eu teria adorado faze‑lo". ele ainda näo conseguiu outro papel importante, mas ele tenta. Procura let todos os scripts que estao sendo transformados em filmes, “mesmo os que näo estou a fin de fazer ou os que nao se adaptam a minha pessoa. Por isso, desenvolvi a minha intuicao: rcconheço um filme que vai ter sucesso. Acerto sete em cada dez".

Ele diz que provavelmente ira mudar para seu apartamento em Manhattan. Isto nao surpreendeu um amigo de Nova York: “ele revitatizou‑se como ator em Anna Christie. Disseram‑lhe novamente que era um grande ator. Ninguem dizia isso a ele desde a epoca do Abbey Theatre. Ha também o fato de que Natasha ama Nova York".

Mas ele ainda vai seguir a potitica de Hollywood, ainda vai trabathar lá. Liam mantém ha anos um arquivo dos filmes que deseja, como o script de Neil Jordan sobre Michael Collins, o carismático fundador da idealista Irmandade da Republica Irlandesa. Ele gosta de citar Henry Fonda. “Atuar na tela e aprender a esperar", ele diz. “Eu admiro muito Richard Harris e as histórias sobre o que fez para conseguir Camelot! Vestiria‑se de garcom e iria ate a mesa onde o chefe de estudio estaria sentado e the apresentaria uma nota numa bandeja de prata, e a nota dizia 'Sou seu Rei Artur! Ele me disse que implorava e bajulava a Warner Brothers para que o deixassem fazer um teste para o novo filme. Não, queriam Paul Newman. Nao, queriam Gene Hackman. Finalmente conseguiu o teste, detonou e conquistou o papel. Atraves da beligerância pura. Este processo, para Richard e para mim, nunca vat terminar. E se for entre eu e Kevin Costner, sera Costner, e a Lista de Schindler nao vai mudar isso".

END.